Flávia Pellegrino: 'As mudanças mais profundas que testemunhei nasceram quando pessoas muito diferentes decidiram trabalhar juntas', diz a diretora-executiva do Pacto pela Democracia
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Jornalista, mestre em Ciência Política e Estudos Latino-Americanos pela universidade francesa Sorbonne Nouvelle, Flávia Pellegrino, de 39 anos, atua há mais de uma década na articulação de redes da sociedade civil brasileira em defesa da democracia e dos direitos humanos. Após concluir o mestrado com uma pesquisa sobre os protestos de junho de 2013, que considera "um marco de transformação", ela retornou ao país. O ativismo pela cidadania e a formação acadêmica confluíram em sua trajetória e a levaram, em 2021, a assumir a diretoria executiva do Pacto pela Democracia, coalizão de organizações, movimentos sociais e lideranças formada em defesa da integridade do sistema político brasileiro.
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— Liderar a coalizão significa criar condições para que outras organizações brilhem e consigam atuar juntas. Talvez o maior desafio seja construir confiança para que estejam dispostas a colaborar permanentemente com a defesa da democracia. Nossa tarefa não é fazer com que todos pensem igual, nem buscar consenso o tempo todo. As organizações podem aderir ou não às iniciativas —defende ela.
Originalmente um movimento chamado Nova Democracia, o Pacto nasceu após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018, e o recrudescimento de ameaças à estabilidade política transformadas em pauta eleitoral.
— A crise democrática havia se aprofundado e o trabalho do Pacto tornou-se vital para conter a escalada autoritária em curso no país —diz Flávia.
Brasil como laboratório
Campanhas, mobilizações e posicionamentos públicos são a parte mais visível, mas o Pacto pela Democracia também atua nos bastidores, onde a capacidade de conectar pessoas, construir confiança e facilitar processos coletivos é mais importante do que o protagonismo. A organização ganhou relevância internacional, conquistando os prêmios World Justice Challenge, em 2024, e, no ano seguinte, o Skoll Award, considerado o Oscar do terceiro setor.
— Vivemos uma pandemia autoritária. Cada país manifesta sintomas de forma diferente, que se espalham com padrões semelhantes: erosão da confiança nas instituições, ataques a processos eleitorais, desinformação organizada, polarização, enfraquecimento da imprensa, descrédito da política e questionamento das regras democráticas. Como em uma pandemia sanitária, nenhum país consegue enfrentar isso sozinho. Precisamos de vacinas que tornem uma democracia mais resistente às crises. Instituições íntegras e confiáveis, eleições seguras, imprensa livre, educação para a cidadania, combate à desinformação, participação social efetiva, cultura de diálogo e uma sociedade civil forte e organizada — enumera a diretora.
Na percepção de Flávia, a história recente fez com que o Brasil passasse a ser visto como um laboratório.
— Sonho com uma sociedade em que a divergência deixe de ser vista como ameaça e volte a ser reconhecida como parte essencial da democracia —afirma a jornalista. — As mudanças mais profundas que testemunhei nasceram quando pessoas muito diferentes decidiram trabalhar juntas em torno de um propósito comum, sempre na ação coletiva.









