Nina da Hora: Tecnologia é o fio condutor do trabalho da criadora de um instituto focado em pesquisa e defesa de direitos digitais, com uma abordagem antirracista
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Atualizado
Cientista da computação e hacker antirracista, Nina da Hora é uma das principais referências em ética, inteligência artificial e racismo algorítmico no Brasil. Aos 31 anos, ela acaba de concluir um mestrado em Visão Computacional e Ética na Unicamp, mas sua relação com os computadores é antiga.
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Nascida Ana Carolina da Hora e criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Nina aprendeu a programar aos 12 anos, usando o computador de uma tia e livros que ganhava de amigos da mãe, professora de português. Ao completar 15 anos, trocou a tradicional festa por um Arduino — uma espécie de placa que possibilita o desenvolvimento de projetos eletrônicos, lançada nos anos 2000.
Quando decidiu fazer graduação em Ciência da Computação, Nina teve que explicar para a avó do que se tratava o curso. Aí surgiu a inspiração para o "Computação sem caô", conjunto de vídeos no YouTube voltado ao ensino digital de forma didática. Desde então, a inclusão é o fio condutor do trabalho de Nina, que tatuou a palavra "hacker" na mão direita para nunca se esquecer de sua missão.
"Ser hacker, pra mim, é quebrar padrões. Eu tenho um posicionamento de que nós precisamos olhar para os padrões que existem e tentar recriar alternativas ou pensar alternativas para que eles sejam cada vez mais inclusivos", declarou numa participação na TV Cultura, este mês.
Tecnologia e ética
Em 2020, Nina fundou o Instituto Da Hora, focado na pesquisa e na defesa de direitos digitais, com abordagem antirracista e voltada para os direitos humanos. Desde 2021, faz parte do grupo de pesquisadores do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV Rio, atuando com os temas de cibersegurança e justiça algorítmica.
Em um campo de incertezas, como define a ciência da computação, ela acredita na convergência entre tecnologia e ética.
— Tecnologia mais ética não é utopia, é disputa. Ela não vai nascer da boa vontade das big techs, vai nascer de regulação séria, de pressão social e de construirmos alternativas próprias. Ética de verdade mexe na estrutura — afirma.
Em 2021, Nina foi incluída na lista Under 30, da revista Forbes, que reconhece jovens que se destacam em suas áreas de atuação. Em 2022, recebeu o Sabiá Award, de Cambridge, pela pesquisa "Racismo algorítmico no reconhecimento facial". Há cinco anos é integrante do Conselho de Segurança do TikTok Brasil.
Diante do controle exercido pelas big techs, ela considera que o Brasil tem tradição em construir regulação de forma participativa, como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados, mas precisa apostar em tecnologias próprias:
— Milton Santos dizia que a técnica nunca é neutra: ela chega ao território carregando as intenções de quem a produziu. E dizia outra coisa que é a chave: é na escassez que mora a invenção. É isso que eu vejo como a grande potência do Brasil. A gente pega qualquer tecnologia pensada lá fora e devolve para o mundo um uso que ninguém previu. A potência não está em copiar o Vale do Silício. Está em fazer tecnologia a partir do nosso território, das nossas perguntas e da nossa gente.
* Na primeira versão deste texto no site e na edição impressa, a foto estava errada. Pelo erro, que já foi corrigido nas plataformas digitais, O GLOBO pede desculpas.









