Empresa da família de Jacob Barata é a única candidata a operar parte das linhas da Zona Oeste; consórcio tentou barrar processo
Sancetour, que também já atuava na região, concorreu sozinha em outro lote. Oferta por linhas da Ilha do Governador não teve interessados
Atualizado
RESUMO
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- A Autoviação Jabour assumirá 23 linhas na Zona Oeste por dez anos. O novo contrato exige frota totalmente renovada com ar-condicionado e acessibilidade.
- A paulistana Sancetour administrará outros dois lotes na região. No entanto, duas áreas licitadas não atraíram interessados e terão regras revistas para 2027.
- A licitação ocorre sob forte tensão entre a prefeitura e as antigas concessionárias. Os principais conflitos envolvem corte de subsídios e a nova bilhetagem eletrônica.
A Autoviação Jabour, do Grupo Guanabara, da família do empresário Jacob Barata, há décadas, maior operador de linhas de ônibus do Rio de Janeiro, vai continuar a prestar serviços na Zona Oeste da cidade pelos próximos dez anos. Na manhã desta sexta-feira, a empresa disputou sozinha um dos lotes oferecidos pela prefeitura, no processo de renovação das concessões do serviço. Ao todo, a empresa vai cuidar de 23 linhas que conectam bairros como Campo Grande e Santa Cruz a Cascadura, Guaratiba, Pedra de Guaratiba e Sepetiba. Parte dessas linhas ou percursos já eram feitos pela Jabour antes mesmo de 2010, quando foi realizada a primeira concessão de linhas no Rio.
A licitação foi antecedida por uma batalha jurídica entre as empresas e a prefeitura. Nos últimos dias, houve pelo menos quatro tentativas de suspender o processo. Um dos recursos protocolados na madrugada desta sexta-feira no plantão do Judiciário foi protocolado pelo Consórcio Santa Cruz, que opera hoje na Zona Oeste. Um dos integrantes do consórcio é justamente a Jabour.
A nova concorrência ocorre em meio a uma queda de braço entre os quatro consórcios que reúnem as empresas que prestam o serviço desde 2010 e o município. Um dos pontos mais questionados foi a redução de repasse de subsídios aos grupos depois que a prefeitura decidiu, em julho de 2025, cortar em 20% o total de viagens realizadas pelas concessionárias. Pelo modelo atual, uma das principais fontes de receita é a quilometragem total percorrida.
Os empresários alegaram prejuízo, enquanto as autoridades municipais afirmam que desejam ter um maior controle pelo sistema e chegaram a chamar de mafiosos os atuais operadores. Outro ponto de conflito foi a mudança do sistema de bilhetagem eletrônica: desde agosto do ano passado, a operação deixou de ser feita pela Riocard, que por anos foi ligada aos empresários, e foi assumida totalmente pelo Jaé, contratada pela prefeitura. O argumento usado pela prefeitura é que, ao ter controle pleno do sistema, seria possível abrir "uma caixa-preta" e planejar melhor o sistema, ao ter os dados das viagens em tempo real.
— A licitação era aberta a empresas que cumprissem regras do edital. Elas devem demonstrar capacidade econômica e técnica para assumir as linhas. Há regras claras definindo indicadores e metas que devem ser cumpridas para não ser penalizada com cortes de subsídios. Se a empresa opera corretamente, não havia impedimento para que disputasse as linhas — disse o secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes.
Ao todo, cinco lotes foram oferecidos nesta sexta-feira. Outros dois lotes, que somam 48 linhas também da Zona Oeste, serão administrados pela empresa paulistana Sancetour. O grupo já operava na região desde setembro do ano passado pela marca SouRio, tendo assumido a operação de serviços anteriormente prestados pela Transportes Barra, que deixou de atuar na região.
Dois lotes para escolher novos operadores de linhas que circulam por Vila Isabel, Grajaú e Ilha do Governador não tiveram interessados. Parte desses serviços era prestada pelas empresas Vila Isabel e Real, que fecharam em janeiro. Por falta de candidatos, no caso da Ilha do Governador, a empresa Paranapuã, que teve parte das linhas assumidas pela Mobi-Rio, estatal que administra os ônibus articulados dos corredores de Bits (Transcarioca, Transolímpica, Transbrasil e Transoeste), deve permanecer no sistema, por enquanto. O mesmo ocorre com a Ideal, que também é ligada ao grupo Guanabara.
Próximas etapas
Arraes acredita que os contratos dos três lotes devem ser assinados provavelmente em outubro, já que as empresas terão que criar o que é conhecido como Sociedades de Propósito Específico (SPE) para operar os serviços. Toda a frota dos novos serviços será renovada e boa parte dos veículos terá piso baixo, para facilitar o acesso de passageiros e portadores de deficiências.
Os veículos contarão também com ar-condicionado, sensores de temperatura, carregadores USB e USB-C, GPS integrado ao Centro de Controle Operacional, botão de emergência para o motorista, painéis eletrônicos de informação aos passageiros e câmeras internas de segurança.
Os coletivos também serão equipados com o que é conhecido como Sistemas Inteligentes de Transporte (ITS), recursos que permitirão o acompanhamento da frota em tempo real, o que ajudará a fiscalizar a operação e acompanhar indicadores de desempenho.
— Os lotes que havíamos oferecido nessa etapa eram para operar 1.420 coletivos. As que tiveram interessados são a maioria. Ao todo serão 1.006 veículos novos, para prestar um serviço que hoje é feito por 564 coletivos — acrescentou Arraes.
As concorrências sem interessados deverão ter as regras revistas e relançadas. Isso, no entanto, só deve acontecer em 2027.
Modelo diferente
O modelo é diferente do implantado em 2010, quando as empresas se reuniram em quatro consórcios por região da cidade. Agora, não há impedimento na participação de consórcios, mas a opção foi por fracionar a operação. Segundo a prefeitura, isso poderá permitir agilizar ajustes na frota ou trocar operadores em caso de problemas, em comparação ao modelo anterior.
As novas concessionárias serão responsáveis pela compra, operação da frota e manutenção dos veículos e das garagens, que ficarão sobre o controle da prefeitura. Uma delas, em fase de implantação, ficará em Campo Grande, em um terreno desapropriado pelo Município que já pertenceu a Pégaso, empresa que deixou o sistema em meio a problemas financeiros.
A primeira licitação, que contemplou ônibus também da Zona Oeste, ocorreu em fevereiro. O grupo Comporte, de São Paulo, assumiu a operação de linhas que prestam serviços em Campo Grande e Santa Cruz. A região ganhou 376 ônibus novos contra os 104 que operavam anteriormente.
Quem foi Jacob Barata
O Grupo Guanabara é um conglomerado que inclui a maior revendedora de chassis de ônibus da Mercedes, dezenas de empresas de ônibus no Rio e em outros estados, um banco que financia a compra de coletivos e uma revendedora de chassis usados. O patriarca do grupo era o empresário Jacob Barata que era conhecido como ''Rei do Ônibus. Paraense, Jacob Barata, que morreu em dezembro de 2023 aos 91 anos, começou aos 18 anos no setor como motorista de uma linha que fazia o percurso Madureira-Candelária. Em 1955, com sócios, adquiriu sua primeira empresa de ônibus.
Hoje, boa parte da frota nova do BRT, por exemplo, foi comprada pela prefeitura na Guanabara Diesel. O primeiro contrato, de 2022, previa um aporte de R$ 867 milhões para fornecer 300 coletivos.
Hoje, um dos principais gestores do grupo é o empresário Jacob Barata Filho, que sucedeu o pai.
— Quando falam em Jacob, infelizmente muitos pensam que sou o dono. Pensam que sou o majoritário. Jacob, Jacob é o bicho-papão”. O controle que eu tenho é: todos os meus sócios que dirigem as empresas. Não sou caixa nem tesoureiro de nenhuma delas. A única coisa que quero é todo dia o caixa na minha mesa. Saber o tostão que entra e o tostão que paga. Não admito fazer um tostão de vale na empresa. Admito qualquer erro, menos financeiro. Se precisar, é só me pedir — declarou o fundador do grupo ao GLOBO em 2013, em uma das raras entrevistas que concedeu.








