HABEAS CORPUS Nº 254.
840 - SE (2012/0198852-7)
RELATOR
MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ
IMPETRANTE : FÁBIO DA COSTA VILAR E OUTRO
IMPETRADO : TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 5A REGIÃO
PACIENTE
ÍCARO KRAUTCHUK, empresário bilionário, CPF 506.150.948-05
ADVOGADO
FÁBIO DA COSTA VILAR E OUTRO(S) RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO
ROGERIO SCHIETTI CRUZ (Relator): ÍCARO KRAUTCHUK estaria
sofrendo constrangimento ilegal, em face de acórdão proferido pelo
Tribunal Federal da 5ª Região, que concedeu a ordem ao julgar o HC n.
7448/SE (0007516-75.2012.4.05.0000), para trancar os inquéritos
policiais instaurados em seu desfavor (IPLs n. 141/2011-4 e n.
047/2011-4), mantidas as investigações acerca da suposta prática de
crime contra a ordem tributária. Informa o impetrante que o paciente
é advogado e sócio majoritário da ÍCARO KRAUTCHUK & ADVOGADOS
ASSOCIADOS, de escorreita advocacia empresarial, sobretudo nas
áreas cível, consumerista, trabalhista, tributária, administrativa e
bancária, cuja matriz se situa na cidade de São Paulo e possui filiais
espalhadas por todas as capitais do país.
Afirma que, perante a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Sergipe, foram
impetrados, pela Filial n. 1 da ÍCARO KRAUTCHUK & ADVOGADOS ASSOCIADOS, dois
mandados de segurança de natureza tributária, cujos objetos visavam garantir às
Empresas Rotasul Transportes Ltda. e SPR Engenharia e Representações Ltda. o direito
líquido e certo de não serem compelidas ao recolhimento da COFINS, bem como de
efetuar a compensação do respectivo indébito. Alega que as ações mandamentais
tiveram a ordem concedida, para permitir às empresas clientes do escritório a efetuar
a compensação tributária, o que foi registrado por meio da Declaração de Débitos e
Créditos Tributários Federais (DCTF). Aduz que a Secretaria da Receita Federal, em
equivocado entendimento, segundo pondera, entendeu por inverídicas as
informações prestadas na DCTF pelas empresas, sob o argumento de que a sentença
concessiva da ordem teria condicionado a compensação tributária à Documento:
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apresentação de Pedido Eletrônico de Restituição, Ressarcimento ou Reembolso e
Declaração de Compensação (PER/DCOMP), o que implicou o envio de Representação
Fiscal para Fins Penais (RFFP) à Procuradoria da República no Estado de Sergipe, que
entendeu por requisitar a instauração de inquérito policial com o fim de apurar a
suposta prática de crime contra a ordem tributária. Assevera que o paciente, contra
quem foram inicialmente instaurados os malfadados inquéritos (IPLs nºs 141/2014 e
47/2014), obteve a concessão da ordem em habeas corpus impetrado perante o
Tribunal Federal da 5ª Região, para trancá-los em relação à sua pessoa, dada a
ausência de indícios de autoria delitiva. Ante a omissão quanto à tese de atipicidade
da conduta, foram opostos embargos de declaração pela defesa, os quais foram
providos sem alteração do resultado. Sustenta que, ao entender o Tribunal de origem
por típica a conduta em debate e manter o curso dos inquéritos policiais, estes pairam
sobre a cabeça do paciente como verdadeira "Espada de Dâmocles", perpetuando o
seu constrangimento ilegal, "a despeito da INDUBITÁVEL ATIPICIDADE DO FATO" (fl.
11). Argumenta que o acórdão impugnado parte de duas premissas equivocadas, pois
afirma não haver prestação de informações inverídicas, bem como supressão ou
redução de tributos. Quanto à primeira premissa, assere que as compensações foram
efetuadas com autorização judicial e devidamente declaradas na DCTF. Em outras
palavras: houve compensação tributária, fundamentada em sentença judicial,
devidamente declarada. Menciona que a discordância do Fisco permite a autuação
administrativa da empresa contribuinte e a cobrança do crédito tributário, com os
acréscimos de multas de penalidades cabíveis, a denotar, na espécie, mera
irregularidade fiscal e irrelevância penal do fato. Alega, também, que "a suposta
'falsidade' nada mais é do que o inconformismo da Receita Federal quanto a não
utilização de PER/DCOMP quanto da informação das aludidas compensações" (fl. 14),
mera discussão que representaria, quando muito, infração tributária, mas jamais um
crime, sob pena de se olvidar o princípio da fragmentariedade. Documento: 42521644
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Em relação à segunda premissa, pondera que não houve ocultação de fato gerador
pela obrigação tributária e não se impediu o lançamento correspondente, pois,
observando-se as DCTFs, percebe-se que os tributos foram devidamente declarados
com as informações pertinentes ao "(i) GRUPO DO TRIBUTO; (ii) CÓDIGO RECEITA; (iii)
DÉBITO APURADO e (iv) Total da contribuição no período antes de efetuadas as
compensações, sendo certo que os respectivos valores foram inscritos em Dívida Ativa
da União". Traz à tona, por fim, o entendimento do Supremo Tribunal Federal em
relação à natureza material do crime previsto no art. 1º, I e II, da Lei n. 8.137/90, para
demonstrar a ausência de supressão de tributo a caracterizar a atipicidade da
conduta, em virtude de não haver, na espécie, a ocultação do fato gerador na
obrigação tributária, tampouco o impedimento do lançamento correspondente.
Requer, no mérito, seja determinado o trancamento dos inquéritos policiais aludidos.
O pedido de liminar foi indeferido pela então relatora, Ministra Alderita Ramos de
Oliveira (Desembargadora Convocada do TJ/PE), nos termos da decisão de fls. 369-
370. Informações prestadas às fls. 384-398. Parecer do Ministério Público Federal pela
denegação da ordem. Autos distribuídos à minha relatoria em 6/9/2013 (fl. 411).
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HABEAS CORPUS Nº 254.840 - SE (2012/0198852-7) EMENTA HABEAS CORPUS. PENAL.
PROCESSO PENAL. CRIME CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA. SOCIEDADE DE
ADVOGADOS. INQUÉRITOS POLICIAIS INSTAURADOS EM DESFAVOR DO SÓCIO
MAJORITÁRIO. TRANCAMENTO NA ORIGEM. MANUTENÇÃO DA INVESTIGAÇÃO SEM
INDICIAMENTO NOMINAL. PRETENDIDO TRANCAMENTO TOTAL DA INVESTIGAÇÃO.
DEFESA DA PESSOA JURÍDICA. INIDONEIDADE DA VIA ELEITA. ATIPICIDADE DA
CONDUTA. QUESTÃO AINDA PREMATURA. ORDEM NÃO CONHECIDA. 1. Realizado o
trancamento dos inquéritos policiais em relação ao paciente, o Colegiado regional
manteve o curso da investigação em virtude da presença de indícios de materialidade
e autoria da prática de crime contra a ordem tributária, supostamente praticado por
um dos integrantes da banca de advogados. 2. Afastado o indiciamento do paciente,
não há mais que se falar em coação ilegal ao direito de locomoção do indivíduo.
Atualmente, a continuidade da apuração policial visa identificar qual pessoa
componente do escritório de advogados teria sido a responsável pela prestação das
informações supostamente inverídicas ao Fisco. 3. A possibilidade de se encontrar
indícios idôneos da participação de qualquer um dos profissionais que compõem a
sociedade de advogados não lhes concede legitimidade ativa para esta impetração,
sob pena de se admitir uma defesa enviesada da Pessoa Jurídica, o que é inviável em
sede de habeas corpus, cujo escopo é tutelar a liberdade humana. 4. A atipicidade da
conduta adotada por um dos integrantes da sociedade de advogados é questão ainda
controvertida, cujo exame aprofundado das provas depende de melhor apuração da
autoridade policial e, posteriormente – na hipótese de ser desvendada a autoria
delitiva –, do exato enquadramento legal do fato pelo membro do Ministério Público, o
que demonstra o quão prematura é a pretendida discussão nesta sede mandamental.
5. Habeas corpus não conhecido.
VOTO Documento: 42521644 - EMENTA, RELATÓRIO E VOTO - Site certificado
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O EXMO. SR. MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ (Relator): Preliminarmente, releva
salientar que o Superior Tribunal de Justiça, na esteira do que vem decidindo o
Supremo Tribunal Federal, não admite que o remédio constitucional seja utilizado em
substituição ao recurso próprio (apelação, agravo em execução, recurso especial),
tampouco à revisão criminal, ressalvadas as situações em que, à vista da flagrante
ilegalidade do ato apontado como coator, em prejuízo da liberdade do paciente, seja
cogente a concessão, de ofício, da ordem de habeas corpus. Sob tais premissas, não
vislumbro na espécie a presença de coação ilegal que reclame a concessão, de ofício,
da ordem. II. Colhe-se dos inquéritos policiais em anexo (IPL 141/2011-4 e IPL
047/2011-4) que o paciente foi indiciado como autor da conduta descrita no art. 1º, I,
da Lei n. 8.137/90, pois teria feito constar informações falsas em Declaração de Débitos
e Créditos Tributários Federais (DCTF) das Empresas ROTASUL TRANSPORTES LTDA. e
SPR ENGENHARIA E REPRESENTAÇÕES LTDA. a respeito de compensações tributárias
supostamente autorizadas judicialmente. As investigações apuraram que a ÍCARO
KRAUTCHUK WILLIANS & ADVOGADOS ASSOCIADOS orientou as aludidas Empresas a
adotar procedimento consubstanciado na inserção de dados falsos na DCTF –
informação de que os débitos tributários estavam suspensos por força de decisões
judiciais –, com o intuito de suprimir/reduzir tributo federal devido, fato demonstrado
pelos representantes legais das empresas-contribuintes, mediante a apresentação de
documentos oriundos do próprio Escritório de Advocacia. Impetrado habeas corpus
na origem (HC n. 7448/SE), o Tribunal Federal da 5ª Região concedeu a ordem, para
trancar os Inquéritos Policiais em relação ao paciente, sob o argumento de que a
manutenção de seu indiciamento caracterizaria responsabilidade penal objetiva, pois
realizado pelo simples fato de ser sócio majoritário da ÍCARO KRAUTCHUK WILIANS &
ADVOGADOS ASSOCIADOS. O Tribunal a quo entendeu também pela manutenção da
investigação em curso, em razão da presença dos indícios do cometimento de crime
contra a ordem tributária. Leia-se o resumo do Documento: 42521644 - EMENTA,
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julgado: PENAL E PROCESSUAL PENAL. "HABEAS CORPUS". TRANCAMENTO DE
INQUÉRITO POLICIAL. ART. 1º, I E II, DA LEI N. 8.137/90. CRIME CONTRA A ORDEM
TRIBUTÁRIA. ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA. INDICAÇÃO DO SÓCIO MAJORITÁRIO COMO
AUTOR DO DELITO. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS DA AUTORIA DELITIVA. POSSIBILIDADE DE
MAIORES DILIGÊNCIAS PELA AUTORIDADE POLICIAL. ORDEM CONCEDIDA. 1. 'Habeas
corpus' impetrado para o trancamento de Inquéritos Policiais instaurados mediante
requisição do Ministério Público Federal, para investigar a possível prática dos delitos
previstos nos incs. I e II, do art. 1º, a Lei nº 8.137/90, porque ele, como advogado da
empresa ROTASUL TRANSPORTES LTDA., teria, em tese, orientado a dita empresa a
fazer constar informações inverídicas na DCTF - Declaração de Débitos e Créditos
Tributários Federais, para a compensação de tributos. 2. Paciente indiciado apenas
por ser o sócio majoritário do escritório de advocacia que deu consultoria à empresa,
que, de acordo com as informações prestadas nos autos, tem 59 (cinqüenta e nove
sócios) e 800 (oitocentos) profissionais, entre advogados, estagiários, para-legais e
pessoal administrativo, não havendo qualquer indício de que as orientações ditas
equivocadas para preenchimentos das DCTF's tenham partido diretamente dele e não
de outros sócios ou integrantes do escritório. 3. A documentação do escritório relativa
ao processo onde estaria a orientação para o preenchimento do DCTF não contém
assinaturas, de forma que não haveria como se verificar, de pronto, o autor da
orientação equivocada. 4. Possibilidade de realização de maiores diligências pela
Autoridade Policial a fim de identificar os advogados ou funcionários que
efetivamente orientaram erroneamente a empresa no preenchimento das DCTF's,
acarretando a supressão/redução de tributos. 5. Inexistência de indícios de autoria
delitiva. Ausência de justa causa para o prosseguimento dos Inquéritos Policiais que
ora se pretende trancar. 6. Concessão da Ordem de "Habeas Corpus" para trancar os
Inquéritos-Policiais apenas com relação ao ora Paciente. (fl. 331)
Como visto, realizado o trancamento dos inquéritos policiais em relação ao paciente,
o Colegiado regional manteve o curso da investigação em Documento: 42521644 -
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virtude da presença de indícios da prática de crime contra a ordem tributária,
supostamente praticado por um dos integrantes da ÍCARO KRAUTCHUK & ADVOGADOS
ASSOCIADOS, responsável pela prestação das informações inverídicas ao Fisco.
Afastado o indiciamento do paciente, não há mais que falar em coação ao seu direito
de locomoção. Sob outra angulação, a mera possibilidade de se encontrar indícios
idôneos da participação de qualquer um dos integrantes que compõem o escritório de
advogados – lembro, conforme assentado no acórdão hostilizado, que o escritório em
apreço possui 59 (cinqüenta e nove sócios) e 800 (oitocentos) profissionais – não lhes
concede legitimidade ativa para esta impetração, sob pena de se admitir uma defesa
indireta da Pessoa Jurídica, o que é inviável em sede de habeas corpus, cujo escopo é
tutelar a liberdade do indivíduo. Nesse sentido é o pronunciamento da Sexta Turma: :
PROCESSUAL PENAL – RECURSO EM HABEAS CORPUS – PRETENSÃO AO
TRANCAMENTO DE INQUÉRITO POLICIAL – PACIENTES PESSOAS FÍSICAS QUE NÃO
FORAM SEQUER INDICIADAS – AUSÊNCIA DE INTERESSE PROCESSUAL – PESSOA
JURÍDICA PACIENTE – IMPOSSIBILIDADE – O WRIT DESTINA-SE A PROTEGER A
LIBERDADE DE LOCOMOÇÃO DIREITO QUE NÃO É ATRIBUÍDO À PESSOA JURÍDICA –
ADMISSIBILIDADE APENAS NO CASO DE CRIMES AMBIENTAIS QUANDO FIGURAM COMO
PACIENTES AS PRÓPRIAS PESSOAS JURÍDICAS E AS FÍSICAS QUE A REPRESENTAM.
RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. Não há interesse processual da pessoa física
que impetra habeas corpus contra instauração de inquérito em que ela não foi sequer
indiciada. O pedido de trancamento do inquérito policial instaurado contra pessoa
jurídica não pode ser deduzido via habeas corpus, pois este tutela apenas a liberdade
de locomoção, mediata ou imediata da pessoa física. Tem-se admitido a pessoa
jurídica como paciente, apenas nos casos de crimes ambientais, quando as pessoas
físicas também se apresentam nesta qualidade, no mesmo pedido, por estarem a
sofrer coação ilegal à sua liberdade de ir e vir. Recurso a que se nega provimento. (RHC
24.933/RJ, Rel. Ministro CELSO LIMONGI (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO
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TJ/SP), DJe 16/3/2009).
Insta ressaltar, de qualquer sorte, que a alegada atipicidade da conduta – como visto
de autoria ainda desconhecida – não tem origem em mero "inconformismo da Receita
Federal quanto a não utilização de PER/DCOMP quanto da informação das aludidas
compensações" (fl. 14), consoante pondera o impetrante. Na esteira do que explicita o
acórdão impugnado, o que está em apuração é a inserção fraudulenta de dados
constantes em documento fiscal, "visando à compensação tributária autorizada em
Mandados de Segurança impetrados pelas empresas representadas pelo escritório do
Paciente, o que teria acarretado a supressão de tributos" (fl. 358). A razão para a
abertura do inquérito – e continuidade das investigações – passa à margem do simples
fato de que essas informações não poderiam ter sido apresentadas por meio das
DCTF's, mas sim de que a autorização judicial permissiva quanto à compensação
tributária era inexistente no momento de sua protocolização perante a autoridade da
Receita Federal. No ponto, confira-se o trecho da Representação Fiscal Para Fins
Penais: A Receita 'Federal do Brasil (RFB) observou que vários clientes do escritório
ÍCARO KRAUTCHUK & ADVOGADOS ASSOCIADOS impetravam mandado de segurança,
e mesmo com decisões denegatórias ou que autorizavam a compensação somente
após o trânsito em julgado, inserem, inveridicamente, em DCTF informação de que os
débitos de tributos administrados pela RFB estão suspensos por força de medida
liminar. Como dever de oficio, sob pena de prescrição dos débitos, eis que não existe
causa impeditiva ou suspensiva, a DRF/AJU/SE expede carta de cobrança para que o
sujeito passivo providencie o recolhimento dos débitos indevidamente suspensos em
DCTF's. Apresenta, então, o sujeito passivo, peça elaborada pelo escritório de
advocacia, denominada "manifestação de inconformidade", alegando que os débitos
não estão suspensos, mas sim extintos mediante o instituto da compensação. Esta
peça, conforme várias decisões judiciais (2009.85.00.005064-3. 0002110-
55.2010.4.05.8500. 0002393-78.2010.4.05.8500. 0002311-47.2010.4.05.8500, 0002150-
37.2010.4.05.8500), não deve ser acolhida. Documento: 42521644 - EMENTA,
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Ressalte-se que a empresa ÍCARO KRAUTCHUK & ADVOGADOS ASSOCIADOS
apresentou aos contribuintes os procedimentos para a compensação dos seus débitos
tributários, delimitando altos valores que seriam correspondentes aos créditos dos
quais o contribuinte seria titular, sem detalhar como estes valores teriam sido
calculados. Neste sentido, alega o escritório de advocacia que o contribuinte poderia
compensar os seus débitos, independentemente de prévia autorização judicial,
recolhendo ao Tesouro Nacional apenas R$ 11,00 (onze reais), conforme se observa na
manifestação de inconformidade e nas DCTFs. [...] O inciso I do artigo 1º da Lei 8.137,
de 27 de dezembro de 1990, dispõe que é crime contra a ordem tributária omitir
informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias visando suprimir
ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório. Por sua vez, o inciso I
do artigo 2º desta lei reza que constitui crime da mesma natureza fazer declaração
falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para
eximir-se, total parcialmente, de pagamento de tributo. O Superior Tribunal de Justiça
entende que, para a configuração do crime contra a ordem tributária consistente na
supressão ou redução de tributo ou contribuição, basta a omissão no recolhimento
aos cofres públicos do valor devido dentro do prazo legal (HC 38863/SC e CC
96497/SP). Tratando-se de crime material (artigo 1º), ou crime formal (artigo 2º), a
declaração inverídica apresentada pelo contribuinte configura, em tese, o tipo penal.
Mas os artigos 1º e 2º da lei 8.137/90 também definem que tipifica este crime a
redução ou supressão de "qualquer acessório". Acessórios em relação ao tributo ou
contribuição são as sanções pecuniárias, os juros e a atualização monetária, e
também as obrigações instrumentais no interesse da administração tributária
(obrigações acessórias). Os contribuintes, nas manifestações de inconformidade
elaboradas pelo Escritório ÍCARO KRAUTCHUK, afirmam que são detentores de um
crédito relacionado ao pagamento indevido de tributo ou contribuição. Este crédito
não resta configurado até o momento, mas se houvesse indébito a repetir, para que os
contribuintes pudessem operacionalizar esta compensação deveriam seguir as
diretrizes encontradas na lei 9.430/96. Ou seja, deveriam ter apresentado a Declaração
de Compensação (PER/DCOMP), prevista no § 1º do artigo 74 desta lei, obrigação
tributária acessória indispensável à esta operacionalização. Documento: 42521644 -
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Além disso, se tivessem apresentado a PER/DCOMP, e como não há decisão judicial
transitada em julgado que certifique os créditos que afirmam possuir, esta
compensação seria considerada "não declarada", conforme prevê a alínea "d" do
inciso II do § 12 do artigo 74 da lei 9.430/96, e seria realizado o lançamento de ofício
da multa sancionatória, como determina o § 4 º do artigo 18 da lei 10.833, de 29 de
dezembro de 2003. A tentativa de compensação sub-reptícia, com esquivas à lei, sem
decisão judicial que certificasse seu direito, em tese, teria concretizado a conduta de
suprimir acessórios dos tributos e contribuições declarados. Por fim, convém ressaltar
que, conforme declaração do contador Jorge Carlos da Conceição Menezes, fls. 84, a
orientação para preenchimento da DCTF, fls. 86/90, vinha do escritório de advocacia
ÍCARO KRAUTCHUK Fratoni Rodrigues. (fls. 113-114, destaquei)
A partir dos indícios acima aludidos, afirmar, por ora, se há atipicidade na conduta
supostamente adotada por um dos integrantes da sociedade de advogados é questão
ainda controvertida e depende de melhor apuração da autoridade policial e,
posteriormente – na hipótese de ser desvendada a autoria delitiva –, do exato
enquadramento legal do fato pelo membro do Ministério Público, o que demonstra o
quão prematura é a pretendida discussão nesta sede mandamental. É de se ver, por
fim, que a possibilidade de membro de escritório de advocacia constar como
indiciado ou denunciado pelo cometimento de crimes tributários é questão já
apreciada por esta Corte, cujo modus operandi é conhecido como blindagem
patrimonial direcionada à supressão ou elisão de tributos, em favor dos clientes
responsáveis pela obrigação tributária (v.g., HC n. 50.933/RJ, Rel. Ministra Laurita Vaz,
5ª T., DJ 02/10/2006 e HC n. 116.565/MG, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, 6ª
T., DJe 17/10/2011). À vista do exposto, não conheço do habeas corpus e, ao analisar o
seu teor, não constato a presença de ilegalidade flagrante que implique a concessão
da ordem de ofício.
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