Prehistoric Digital Poetry An Archaeology of Forms 1st Edition Christopher Thompson Funkhouser - PDF Download (2025)
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Prehistoric Digital Poetry An Archaeology of Forms 1st
Edition Christopher Thompson Funkhouser Digital
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Author(s): Christopher Thompson Funkhouser, Sandy Baldwin
ISBN(s): 9780817380878, 0817380876
Edition: 1
File Details: PDF, 3.04 MB
Year: 2007
Language: english
Prehistoric Digital Poetry
MODER N A N D CON T EMPOR A RY POET ICS
Series Editors
Charles Bernstein
Hank Lazer
C. T. F U N K HOUSER
T H E U N I V ERSI T Y OF A L A BA M A PR ESS
Tuscaloosa
Copyright © 2007
The University of Alabama Press
Tuscaloosa, Alabama 35487-0380
All rights reserved
Manufactured in the United States of America
Typeface: Minion
∞
The paper on which this book is printed meets the minimum requirements of American
National Standard for Information Sciences-Permanence of Paper for Printed Library
Materials, ANSI Z39.48-1984.
Funkhouser, Chris.
Prehistoric digital poetry : an archaeology of forms, 1959–1995 / C. T. Funkhouser.
p. cm. — (Modern and contemporary poetics)
Includes bibliographical references and index.
ISBN-13: 978-0-8173-1562-7 (cloth : alk. paper)
ISBN-10: 0-8173-1562-4 (cloth : alk. paper)
ISBN-13: 978-0-8173-5422-0 (pbk. : alk. paper)
ISBN-10: 0-8173-5422-0 (pbk. : alk. paper)
1. Computer poetry—History and criticism. 2. Computer poetry—Technique.
3. Interactive multimedia. 4. Hypertext systems. I. Title.
PN1059.C6F86 2007
808.10285—dc22
2006037512
Portions of I-VI by John Cage have been reprinted by permission of Harvard University
Press, Cambridge, Mass, pp. 1, 2, 5, 103, 435. Copyright © 1990 by the President and
Fellows of Harvard College.
To my comrades in the present and to cybernetic
literary paleontologists of the mythic future
“The poem is a machine,” said that famous man, and so I’m building one.
Or at least I’m having it built, because I want something big and impressive and
automatic.
You see, people will stand in front of it and insert money, dimes or quarters,
depending upon the poem’s locus.
Yes the whole thing will clank and hum and light up and issue a string of words
on colored ticker-tape.
Or maybe the customers will wear ear-phones and turn small knobs so the
experience will be more audile-tactile than old fashioned visual.
In any case they will only get one line at a time,
This being the most important feature of my design which is based on the
principle that,
In poetry, “one perception must immediately and directly lead to a further
perception,”
And therefore the audience will be compelled to feed in coin after coin.
Now I admit that the prototype model that you see on display is something of a
compromise, as it has a live poet concealed inside.
But I assure you that this crudity will eventually be eliminated
Because each machine, I mean each poem, is to be fully computerized
And so able to stand on its own feet.
—Lionel Kearns, “Kinetic Poem” (1968)
Contents
List of Illustrations xi
Foreword xv
A Chronology of Works in Digital Poetry, 1959–1995 xix
Introduction: Evolving Circuits of Digital Poetry 1
1. Origination: Text Generation 31
2. Visual and Kinetic Digital Poems 85
3. Hypertext and Hypermedia 150
4. Alternative Arrangements for Digital Poetry 199
5. Techniques Enabled:
(Pro)Fusions after Poetry Computerized 221
Appendix A: Codeworks 257
Appendix B: Holography 265
Acknowledgments 271
Notes 275
Bibliography 325
Index 341
Illustrations
This chronology provides the initial works done by poets (or publishers)
and the ¤rst developments in particular areas of digital poetry. Many (but
not all) of these events are discussed in the following chapters. As a record
of advancements that occurred within the genre, this document aims to be
encompassing and inclusive though not complete. Every work by every art-
ist is not highlighted, and undoubtedly more works will be brought to my
attention upon the publication of this book.
1959
• First programs of computer poems, “Stochastische Texte” (a text genera-
tor) by Theo Lutz
1960
• Oulipo founded
• Brion Gysin’s permutation poem “I am that I am” programmed by Ian
Somerville
1961
• Nanni Balestrini’s “Tape Mark I” created with code and punched cards
on an IBM 7070
• Rul Gunzenhäuser, “Weinachtgedicht” (automatic poems)
1962
• “Auto-Beatnik” (Time, May 25)
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O reinado de D. Miguel approximava-se da sua terminação, e a
tempestade, que se formára n’uma pequena ilha no meio do oceano,
rebentára já sobre todo o paiz.
Armava-se a nação em peso; guerrilhas de um e outro partido
percorriam as povoações e juntavam aos horrores da guerra civil o
assassinato, o roubo, o incendio, o forçamento e o sacrilegio.
Bem esmorecido era o ecco, que na minha cella repercutia; mas
ainda assim por elle avaliava das borrascas, que se desencadeavam
fóra. Por quanto ainda que procurasse apartar-me das coisas d’este
mundo, por tal fórma andavam todos preoccupados com os
acontecimentos, que se iam succedendo uns após outros com
rapidez incrivel, que era impossivel deixar de perceber, que havia
graves casos, a attribularem a humanidade.
Fallaram-me de combates, de mortes, de incendios, de
devastações; mas tal eu estava, que me era tudo indifferente. Antes,
porém, occasiões havia em que, confesso-lh’o, desejava que um
terremoto subvertesse o mundo para que na geral destruição
encontrasse vingança correspondente ao que me haviam feito
padecer.
Acordei das minhas meditações uma noite, ao rebate dos sinos da
povoação proxima e ao dobrar sinistro e precipitado da campa do
nosso convento. Ruidos desusados eccoavam por aquellas abobadas,
passos de quem fugia, vozes de quem pedia soccorro, supplicas,
choros, imprecações tudo se misturava e confundia.
Estava para me levantar do estudo e para saber a causa de
semelhante alvoroto; quando a figura magestosa de Fr. João da
Soledade me appareceu á porta da cella aberta de par em par.
—Ergue-te, Joaquim, disse-me, toma as tuas sandalias e o teu
bordão de viajante e caminha!
Aquella voz fóra d’horas, aquellas palavras solemnes produziram-
me effeito não inferior ao que deverá produzir a trombeta final no
Valle de Josaphat.
—Que quer de mim, meu pae?
—Acabaram-se os dias de paz, chegaram as horas das provações
e da lucta. Os servos do Senhor são perseguidos de terra em terra
como animaes ferozes em montaria. Os impios não respeitam nem
as abobadas sagradas, nem os vasos da eucharistia. Mesmo com a
hostia sacrosanta na mão será o padre perseguido se assim o
encontrarem!
A espada de Malco substitue a palavra de amor. Volta a egreja aos
tempos da perseguição e do martyrio; segue-nos, Joaquim, as aguas
do diluvio avançam cada vez mais.
Fr. João estava profundamente impressionado. A paixão politica
ateava-lhe o zelo religioso, o homem do seculo trazia para junto dos
altares as suas affeições mundanas, e das crenças fazia evangelhos.
Pela minha parte, quasi que o não comprehendia. A linguagem
emphatica, que estava empregando, destoava muito da singelleza
em que educára o meu espirito reflexivo e concentrado. Fr. João com
o olhar chammejante, o gesto altivo, o rosto illuminado por um
enthusiasmo mais guerreiro do que apostolico, lembrava-me um
d’aquelles monges prégadores de eras affastadas, que a minha
imaginação tivesse feito surgir dos livros abertos deante de mim, e
que de espada na mão direita, e crucifixo na esquerda, queriam
abrir o caminho da redempção com o ferro destruidor, atravez das
hostes dos infieis.
—Mas, meu pae, que aconteceu?
—Aconteceu, que os exercitos invasores se approximam talando
campos e povoações; aconteceu, que na sua marcha amaldiçoada
não ha propriedade que resista, cabellos brancos que se respeitem,
honra de mulher que se recate; aconteceu que aos que cedem,
espoliam; aos que não cedem, assassinam; aconteceu, que fallam
em levantar mão sacrilega contra as muralhas defesas a profanos
d’este venerando templo. Os phariseus em motim pedem o sangue
dos justos. Deixemos a habitação de paz, d’onde nos expulsa a
malevolencia dos impios, e vamos, como os apostolos, de terra em
terra, de monte em monte, de caverna em caverna, onde suas vozes
não cheguem, onde seu braço não alcance, levantar sobre a pedra
tosca e rude a cruz do sacrificio, a hostia da redempção. Vem
comnosco filho, vem percorrer o teu Getsemani.
Entretanto o sino grande continuava a dobrar com som soturno,
os gritos da povoação disperta em sobresalto, os passos precipitados
dos frades, que desamparavam, gemendo, as cellas em que haviam
vivido por tanto tempo, e onde esperavam descançar para sempre, o
som ameaçador e irregular de um tiroteio ao longe, davam áquella
scena um caracter que impressionava profundamente. Pela minha
parte, parecia-me que um novo pesadello me vinha cortar a
somnolencia em que demorava havia tanto; resistia ao movimento e
prostrado de animo e de corpo, preferia que me matassem
n’aquelles logares a ir tentar nova sorte, n’esse mundo a que tinha
tão grande horror.
Fr. João, que nos momentos solemnes parecia transformar-se,
approximou-se de mim, tomou-me por um braço, fez levantar-me
contra minha vontade, e bradou-me com voz terrivel:
—Serás tão ingrato, que desampares teus irmãos no momento do
perigo? Aqueceria eu por ventura a serpente no meu seio?—Seria a
prova mais cruel, porque te quero como filho; mas bem merecido
castigo, por ter deposto a minha ternura n’essa vil argila. Fica-te
para ahi, e fique a minha maldição comtigo.
E com tanta força me abalou, que me ia lançando por terra.
Firmei-me porém, e respondi-lhe:
—Não, meu pae, não sou ingrato. Seguil-o-hei como a sombra
segue o corpo, como a alma segue o pensamento. Era o aspecto do
mundo que me espavoria; voltára tão mal ferido do combate, que
não seria para extranhar que vacillasse agora antes de vestir de
novo as armas. Sabe meu pae, que me não arreceio nem da morte
nem das provações; mas sabe tambem quanto me custa ir fitar de
novo essa gente, que tão grandes males me causou. Eis porque
hesitava. Aqui me tem prompto para tudo, e creia que me não
apartarei do seu lado.
O velho estendeu-me os braços, e com as lagrimas nos olhos:
—Sempre o acreditei assim, meu filho: abracemo-nos, que talvez
seja esta a ultima vez. Agora a caminho! Vamos reunir-nos a nossos
irmãos e infundir-lhes a coragem, que nos fallece. Irmão, filho; meu
filho, animo.
Como um rebanho de ovelhas, que ao presentir o lobo se reunem
em mó, e se apertam tanto, como se umas quizessem entrar nas
outras; assim os frades se apinhavam junto ás portas do convento,
espavoridos, tremulos, espalhando vistas atterradas para todos os
lados, e escutando os pavorosos sons d’alarme, que estrugiam os
ares.
Fr. João da Soledade assumira na communidade a preponderancia,
que a intelligencia forte e arrojada exerce sempre n’uma corporação
naturalmente timida e indecisa. A sua presença serenou por um
pouco os animos.
Procurando dar á voz uma entoação firme, cuidou o velho em
confortar os seus companheiros n’aquelle extremo lance, com
esperanças de melhor futuro; em que elle acreditava menos do que
ninguem.
As ultimas palavras porém, foram cobertas pelos clamores de
victoria, pelos gritos de angustia e pelos tiros de espingarda, cujos
sons misturados e confundidos pareciam precipitarem-se sobre nós
em turbilhões e redemoinhos como o vento da tempestade.
Os religiosos estremeceram, e pensaram em fugir cada um por
seu lado, a voz de Fr. João mais fortalecida e mais segura, tal era o
poder da vontade n’aquella alma de ferro, alentou-os por momentos;
entretanto os clarões do incendio tingiam de vermelho o céo e o
rasto do fogo annunciava a approximação dos guerrilhas.
Em pouco avistaram-se no cimo de um monte proximo os
inimigos, deante dos quaes fugiam em debandada alguns
miliciannos da terra, que por momentos tinham pensado em bater-
se. Um grito unisono partiu da bocca das creanças e das mulheres,
ao verem approximar-se aquelles homens sem piedade, avidos de
sangue e de exterminio; os frades transidos de medo entoaram,
erguendo os braços aos céos em signal de entranhada angustia, o
psalmo dos agonisantes.
As primeiras palavras denunciaram aos guerrilheiros a nossa
presença; ouvimol-os distinctamente clamar:—a elles, aos mandriões
dos frades,—e apontaram as espingardas.
Ao vêl-os fazer pontaria Fr. João exclamou rapido:
—Por terra, prostemos-nos, irmãos, senão estamos perdidos! Os
frades obedeceram immediatamente; o susto mesmo deitava-os no
chão; os tiros partiram; mas as balas silvaram por cima das nossas
cabeças, e uma só feriu um dos religiosos, que tinha ficado mais
distante.
Passada a descarga ergueram-se todos, e como bando de pombas
a que atirou o caçador, deitaram a fugir em diversas direcções,
caindo, erguendo-se, de rastos, gritando, gemendo, mas correndo
quanto podiam.
Junto ás portas do convento desamparado, só ficavamos, depois
da primeira descarga dos guerrilheiros, Fr. João da Soledade e eu.
V
Entrados apenas na povoação, começaram os guerrilheiros a
saquear e a devastar tudo. Do logar, em que estavamos, podia-se
conhecer de seus movimentos pelo vaguear dos archotes, pelo soltar
de gritos afflictivos, e pelas columnas de fumo, que se ennovellavam
aqui e além, sobre os telhados das habitações a que lançavam fogo,
quando a preza os não satisfazia.
A lembrança de Margarida, que não me tinha desamparado nunca,
confesso-lh’o, nem mesmo quando mais fervorosas supplicas
levantava ao céo, accudiu-me ao pensamento.
—Meu pae, exclamei, fujamos, antes que caiam sobre o convento
e nos surprehendam aqui; sigâmos pela estrada, que vae por fóra da
povoação, e vejamos se podemos, esta noite ainda, chegar a nossa
casa, avisaremos depois sobre o que temos que fazer.
—Vamos, filho, e o Senhor se compadeça de nós.
Não era o amor á vida que me apartava d’aquelles logares. Por
minha vontade ficaria sepultado sob as ruinas do convento e fizera
da minha cella um sepulchro. Mas a essas horas quem sabe o que
seria de Margarida! Tremia só de o pensar, e o quadro que tinha
ante os olhos mais me apavorava ainda; porque d’ahi concluia dos
horrores, que ella poderia ter presenciado, se é que d’elles não
tivesse sido victima.
Não imagina nem por sombras o que seja uma guerra civil. Por
muito que lhe contem, tudo fica muito abaixo da realidade. Aquella
porém era guerra de exterminio.
Desencadeavam-se odios, que estavam em incubação, havia
dezenas de annos. Aggrediam-se visinhos, parentes, amigos e
irmãos, e aggrediam-se tanto mais cruelmente, quanto melhor
sabiam, onde haviam de ferir. Não poupavam ninguem, não havia
recanto que valesse, não havia esconderijo que salvasse, não havia
nem idade, nem sexo, que pozessem a coberto do insulto, da
affronta, da violencia, tanto mais crueis quanto partiam dos que dois
dias antes comiam á mesma mesa, e bebiam no mesmo copo.
Ao romper da manhã estavamos deante da casa de meu pae.
Tinham-me preparado para terriveis surprezas as scenas, que
presenceára pelo caminho; o que vi, porém, sobrelevou muito ao
que eu esperava.
Tudo em terra, tudo saqueado, tudo roubado, e os cadaveres de
meu pobre pae e de minha velha mãe a meio da casa, crivados de
feridas...
As lagrimas suffocaram o velho narrador, que teve de descançar
por momentos antes de poder proseguir.
—Descance, tio Joaquim, disse-lhe já quasi arrependido da minha
indiscreta curiosidade, não continue, custa-lhe tanto... Outra vez me
contará o resto.
—Não, para quê? Tem de ser. Não é o contar que custa, é
lembrar; e raras vezes me esqueço. Isto já passa, um momento de
descanço e continúo.
Tinham entrado em casa, e dado rigorosa busca para encontrarem
os thesouros; que, segundo era fama na terra, havia em casa.
Desesperados por não acharem o que esperavam, voltaram-se
contra os dois velhos, que por mais que quizessem não os podiam
satisfazer; por quanto apenas havia começado a guerra tinham
escondido n’outra parte o seu dinheiro.
Não lhe acreditaram nos juramentos, e mataram-nos
barbaramente para se vingarem das suas negativas.
—E Margarida?
—Havia dias que partira para uma fazenda d’ali distante em
companhia de meu irmão, salvára-se da morte, e da deshonra.
—Pois quê?...
—A tudo se atreviam aquelles homens implacaveis. Não havia
barreira que se lhe puzesse deante, nem consideração, que os
demovesse, pareciam furiosos.
Pela convivencia soube o que eram esses desalmados, a quem o
amor da patria servia de pretexto, e o amor da rapina estimulava
unicamente.
—Pois o tio Joaquim?...
—Fui guerrilheiro tambem. A vista dos cadaveres de meus paes
operou em mim uma revolução pavorosa. Tive sêde de sangue, de
destruição, de vingança. Enterrei os dois velhos sem derramar uma
só lagrima. A febre do exterminio requeimava-me por dentro, cravei
uma cruz sobre a cova onde ficaram, unidos como o haviam sido
sempre, e jurei que não descançaria emquanto tivesse forças para
uma espingarda.
Fr. João, que era perseguido tambem como lobo, porque todos o
conheciam, juntou-se comigo; reunimos os mais enfurecidos do
logar, aggravámos as feridas dos que mais haviam padecido, e
levantámos uma guerrilha das mais afamadas n’aquelles tempos, e
bem conhecida pelo nome de—guerrilha do frade.—
Luctámos, luctámos com encarniçamento sem egual, e parecia
que as forças se nos augmentavam com a lucta. Andei n’aquella vida
errante perto de um mez, sem dormir uma noite somno que
aproveitasse, sem ter duas horas de descanço, sem ter um momento
sequer para pensar no passado, ou no futuro.
Seguiam-se os combates, as embuscadas, as fugas, os ataques,
sem descontinuarem, sem interrupção alguma. Era preciso homens
de ferro para aquella vida, e entretanto, de tal fórma o furor nos
trazia incendidos, que ao cabo do mez parecia que mal haviamos
começado.
Um dia ao amanhecer, um dos nossos, que andava por fóra veiu
avisar-nos de que outra guerrilha se approximava, da qual se
contavam proezas inauditas.
Esperámol-a e saimos-lhe a caminho, desejosos de nos medir com
esses tão celebrados inimigos.
Durou quatro horas o fogo, batemo-nos como desesperados de
parte a parte, até que fugiram em debandada, deixando o campo
juncado de cadaveres. Dos nossos a perda fôra consideravel
tambem, e Fr. João agonisava com uma bala nos pulmões. Saia-lhe
da bocca sangue e espuma, soluçava que fazia horror ouvil-o, e
expirou-me nos braços, procurando debalde articular algumas
palavras.
Corremos a revistar os mortos que os contrarios haviam deixado
insepultos. Entre os cadaveres reconheci meu irmão!...
VI
Estava castigado do que havia feito como guerrilheiro; a minha
campanha estava concluida. Tinha corrido ás armas para vingar a
morte de meus paes, e arrojava a espingarda homicida diante do
cadaver de meu irmão.
Triste periodo da minha vida, entre duas sepulturas; e sepulturas
dos meus mais proximos parentes!
A guerra estava a acabar.
Tinha-se assignado a convenção de Evora-Monte, por toda a parte
os vencidos depunham as armas, e procuravam salvar-se das
represalias pela fuga, ou pelo homisio.
Caminhei sem saber como, nem por onde, para fugir ao
ensanguentado espectro de meu irmão, que parecia perseguir-me,
trazendo apoz si as victimas de quantos haviam perecido aos nossos
tiros; os meus companheiros tresmalharam-se em diversas
direcções. Separámo-nos, como nos haviamos reunido, sem pena
nem saudades. Apesar de termos vivido tanto tempo juntos, quasi
que nem nos conheciamos.
Á noite entrei na povoação.
Bati a uma casa, que, semelhante a sentinella perdida, estava
mais affastada das outras. Abriram-me a porta, soltaram um grito ao
vêr-me: eu ia dando no chão. Reconheci Margarida.
—E Filippe?
Pareceu-me que assim devera ser a voz do Senhor, quando bradou
ao primeiro fratricida:
—Cain, que fizeste de teu irmão Abel?
Não tive forças para negar, exclamei-lhe em resposta:
—Morto!
E desatei a soluçar, escondendo o rosto entre as mãos.
Á
Á minha vista parecia ter adivinhado tudo com essa lucidez, que
dá o sentimento. Eu não podéra resistir á voz da consciencia, que
parecia accusar-me pela bocca de Margarida.
A desgraçada viuva caiu fulminada. Quando tornou a si tinha
enlouquecido.
Aquelle viver de sustos e de inquietações constantes de tal fórma
lhe haviam excitado o espirito, que um golpe tão profundo assim
rapido, quasi inesperado, achou-a sem forças para o aguentar. Ao
menos deixava de padecer.
Durou alguns mezes ainda. E tudo quanto até então eu tinha
experimentado, poderia dizer se brinco de creanças comparado aos
tormentos que aturei durante esses mezes.
Não soube nunca onde meus paes tinham escondido os seus
bens. Estavamos pobres, e Margarida, que se definhava a olhos
vistos, reclamava cuidados e despezas que me obrigaram a vender
quanto possuia, e a trabalhar de noite e de dia para acudir á pobre
enferma.
Amára Margarida com toda a vehemencia do primeiro e ultimo
amor. A paixão mais energica do homem, a que o arroja ás maiores
emprezas, ou o precipita até ás acções mais vis, tinha rebentado em
mim com toda a força ao vêr aquella santa e boa rapariga.
Aprendera com ella o que era amor, e soffrera tanto mais, quanto
via que era por outro que ella experimentava sentimento egual ao
meu. Agora, porém, tinha-a a meu lado sempre; mas como morta ou
peor ainda, porque horrorisavam e arrefeciam mais aquelles
transportes de loucura, do que os gelos e o pavor da sepultura.
Ouvi-a de noite e de dia chamar por um nome que não era o meu, e
cada vez que lh’o ouvia, parecia que com elle, d’aquella bocca pela
qual para que desabrochasse n’algumas palavras de amor, eu déra a
vida, saía uma accusação, um anathema contra mim.
O nome do meu rival, de quem me não podia vingar porque
estava morto, esse nome que ouvia a todos os momentos, era o de
meu irmão, morto pelos meus, talvez por mim; e eu vivia para que
Margarida me recordasse a todos os momentos: a mesma bala que
commettera um fratricidio, enlouquecera a unica mulher que havia
amado.
Adivinha o resto; nem mesmo eu teria forças para continuar por
muito tempo.
Margarida morreu. Eu estava só, sem meios, cercado de terriveis
recordações. Fugi a esse mundo de pavorosos espectros, e vim por
ahi abaixo procurar no trabalho o esquecimento. Tenho trabalhado;
mas não poude esquecer ainda!...
VII
O tio Joaquim acabára de fallar e parecia ouvil-o ainda. Tinham
ficado resoando-me as suas palavras, como a pancada do sino
depois de tangido, e que por muito tempo vae abalando o espaço.
Já de muito anoitecera. Com a noite começára a carregar-se o
céo, a encapellar-se o mar, a desencadear-se o vento. Rugia a
tempestade, quando o velho concluiu. O ribombo do trovão abafou-
lhe as ultimas palavras. A natureza parecera querer accrescentar um
côro magestoso áquella eloquente manifestação.
Lancei os olhos em roda; levantei-me, dei o braço ao narrador, e
começámos a descer pela encosta com extrema difficuldade, porque
já fazia muito escuro.
O tio Joaquim não dava por coisa alguma, deixava conduzir-se
como uma creança. Não parecia d’este mundo.
Ao voltar para uma azinhaga que no fim da praia cortava para a
estrada, volvi os olhos para o mar, que cada vez se embravecia mais,
e vi á luz de um relampago o sitio, onde sentado havia pouco, tinha
ouvido a historia do velho.
Comparei aquellas duas tempestades: a que ribombava
surdamente na alma do velho, e a que estalava nos ares levantando
em escarceus a agua do mar, e varrendo a terra com o furioso
soprar do furacão.
Quanto era superior o padecimento do velho!—E entretanto d’ali a
poucas horas a natureza descançava d’aquella convulsão violenta;
mas o tio Joaquim continuava a padecer, suspirando pela tardia hora
do repouso.
Só a natureza póde descançar porque é immortal; para o homem
o descanço chega, apenas, quando lhe começa a immortalidade.
Finalmente o tio Joaquim tambem descançou.
FIM
NOTAS
[1] Na manhã do dia seguinte áquelle, em que este pequeno
conto apparecia publicado, recebia o auctor uma carta do sr. A. F.
de Castilho, em que dizia: amigo, pelos seus retratos de familia
receba um bom abraço do seu etc., etc. Estas poucas palavras
valeram para a pessoa a quem se dirigiam, mais do que largos e
empolados juizos criticos. Regista-as aqui, não por vaidade, não
por desvanecimento; mas só como um testemunho da verdadeira
estima e profunda gratidão, que tributa ao grande poeta.
[2] S. Lucas—Cap. 6.º—V.º 25 e 26.
[3] S. Matt.º Cap. 6.º V.º 28 30 31 32 33 34.
*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK OS CONTOS DO
TIO JOAQUIM ***
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